sábado, 30 de janeiro de 2010

APOLOGIA DA HISTÓRIA OU OFÍCIO DO HISTORIADOR - MARC BLOCH

INTRODUÇÃO

Não imagino, para um escritor, elogio maior do que o saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares. Mas simplicidade tamanha é privilégio de raros eleitos. As circunstâncias de minha vida presente , a impossibilidade em que me encontro de recorrer a qualquer grande biblioteca, a perda dos meus próprios livros, levam-me a confiar muito nas minhas notas e no meu saber adquirido. Na maior parte dos casos, estão-me interditas as leituras complementares e as verificações exigidas pelas próprias leis do ofício cujas práticas me proponho descrever.
Em 1942, ano em que escrevo, num mundo em que acaba de abordar a química do átomo e apenas começar a sondar o segredo dos espaços estelares, no nosso pobre mundo que não consegue todavia criar-se um pouco de felicidade, é certo que as longas minúcias da erudição histórica, capazes de devorar toda uma vida, mereciam ser condenadas como um esbanjamento de forças absurdo a ponto de ser criminoso, se não terminassem por revestir-se de um pouco de verdade, um dos nossos passatempos.
Ninguém ousará dizer ainda, com os positivistas de estrita observância, que o valor de uma pesquisa se mede em tudo pela sua capacidade de servir à ação. A experiência não nos ensinou apenas que impossível decidir antecipadamente se as especulações aparentemente mais desinteressantes não virão a revelar-se, um dia, extraordinariamente prestáveis à prática. Não pode todavia negar-se que uma ciência parece sempre ter algo de imcompleto se não for capaz, mais cedo ou mais tarde, de nos ajudar a viver melhor.
Porque a história não é apenas uma ciência em marcha. É uma ciência na infância: como todas as que têm por objeto o espírito humano, que chegou tarde ao campo do conhecimento racional. Esforça-se por penetrar além dos fatos de superfície, por rejeitar, após seduções da lenda e da retórica, os venenos, hoje mais perigosos, da rotina erudita e do empirismo disfarçado de senso comum. Estamos doravante muito mais preparados para admitir que não seja suscetível de demonstrações euclicidianas ou de imutáveis leis de repetião.

A HISTÓRIA, OS HOMENS E O TEMPO
A palavra história é uma palavra velhissíma, tão velha que houve quem cansasse dela. a palavra não proíbe nenhuma direção de pesquisa, quer deva orientar-se de preferência para o indivíduo ou para a sociedade, para a descrição das coisas momentâneas ou para a indagação dos elementos mais duradouros. Ela não contém em si mesma nenhum credo. Entretanto, a palavra história desde que apareceu há dois mil anos, mudou muito de sentido.
Algumas vezes se disse: a História é a ciência do passado. É um erro dizê-lo em meu entender.Primeiro, a própria ideia de que o passado, como tal, possa ser objeto de ciência é absurda. Há muito que os nossos grandes precursores Michelet e Fustel de Coulanges nos tinham ensinado a reconhecer: o objeto da história é por natureza o homem. Melhor, os homens. Por detrás dos traços sensíveis da paisagem, dos utensílios ou das máquinas, por detrás dos documentos escritos, aparentemente mais glaciais e das instituições aparentemente mais distanciadas dos que as elaboraram, são exatamente os homens que a história pretende apreender.
Temos que ainda acrescenter: dos homens no tempo. O historiador não pensa apenas o humano. A atmosfera em que o seu pensamento respira naturalmente é a categoria da duração. A explicação do mais próximo pelo mais remoto, sendo naturalmente prezada pelos homens que fazem do passado o seu principal tema de investigação, dominou por vezes os nossos estudos até à hipnose. Entretanto, pelo fato de o passado não explicar todo o presente é inútil para sua explicação? Todo aquele que se ativer ao presente, ao atual, não compreenderá o atual.
Já não pensamos como escrevia Maquiavel que há no tempo uma coisa pelo menos que é imutável: o homem. Aprendemos que também o homem mudou muito, no seu espírito e provavelmente até nos mais delicados mecanismos do corpo.
Só há uma ciência dos homens no tempo e que tem de vincular incessantemente o estudo dos mortos ao dos vivos. A vida é demasiado breve, excessivamente demorada a aquisição de conhecimentos, para ser possível, mesmo ao maior gênio, uma experiência total da humanidade. O mundo atual terá sempre os seus especialistas, como a idade da Pedra e a Egiptologia. A uns e a outros se pede simplesmente que se lembrem de que as investigações históricas não suporta nenhuma autarquia.Isolado, ninguém compreende as coisas, senão por metade, mesmo no seu próprio âmbito de estudos e a única história verdadeira que só pode ser feita mediante colaboração recípocra, é a história universal.

II -  A OBSERVAÇÃO HISTÓRICA
Dizemos que o historiador não pode observar os fatos que estuda. Nenhum egiptólogo viu Ramsés. Nenhum especialista das guerras napoleônicas ouviu o canhão de Austerlz. Das épocas que nos precederam, só podemos falar através de testemunhas. Em suma, por contraste com o conhecimento do presente, o do passado só seria possível indiretamente.
Como primeira característica, o conhecimento de todos os fatos humanos no passado, o conhecimento da maior parte deles no presente, tem de ser segundo a expressão feliz de François Simiand, um conhecimento por vestígios.
O talento dos investigadores a esquadrinhar as bibliotecas, a abrir novas trincheiras nos velhos solos, não é o único, nem talvez o mais eficaz a enriquecer a imagem que temos do passado. Surgiram também processos de investigação até aqui desconhecidos.Sabemos melhor do que os nossos predecessores interrogar as línguas acerca dos costumes, a ferramenta a respeito dos operários. Aprendemos sobretudo a penetrar mais fundo na análise dos fatos.
A investigação histórica,à medida que progredia, foi levada a confiar cada vez mais na segunda categoria de testemunhos, isto é, nas testemunhas que não pretendiam sê-lo. Sem o seu socorro, aconteceria que os historiadores de cada vez que se debruçassem sobre gerações desaparecidas, se tornaria um prisioneiro dos preconceitos das falsas prudências, das miopias que também essas gerações sofreram. Atemo-nos de ordinário, com interesse muito mais vivo, ao que o texto nos dá a entender sem ter tido a intenção de dizê- lo.
Desde que nó não nos resignemos a registrar pura e simplesmente o que dizem as nossas testemunhas, de que entendemos forçá-las a falar, mesmo contra a sua vontade - impõem-se mais do que nunca um questionáro. É claro que pode ser questionário puramente instintivo, mas ele lá está no entanto.
É naturalmente necessário que a escolha refletida das perguntas seja extremamente maleável, suscetível de se enriquecer pelo caminho de uma quantidade de quesitos novos a servir, desde o início, de imã às limalhas do documento. O explorador sabe que o itinerário que traçou ao partir não será seguido ponto aponto. Mas sem o traçar, arrisca-se a andar eternamente à aventura.
É quase infinita a quantidade de testemunhos históricos. Tudo quanto o homem diz ou escreve, tudo quanto fabrica, tudo em que toca, pode informar ao seu respeito. Uma das tarefas mais difíceis do historiador é reunir os documentos de que pensa ter necessidade. Ser-lhe-ia difícil consegui-lo sem socorro de diversos guias: inventários de arquivos ou de bibliotecas, catálogos de museus, repertórios bibliográficos de todas as espécies.
Ao contrário do que pode aparecer para principiantes, os documentos não surgem aqui ou acolá por artes mágicas. A sua presença ou a sua ausência, em determinado fundo de arquivo, em determinada biblioteca, em determinado terreno, dependem de causas humanas que maneira alguma escapam à análise e os problemas que sua transmissão levanta longe de se encontrarem somente ao alcance de exercícios de técnicos, respeitam, eles mesmos, ao mais íntimo da vida do passado, porque aquilo que se encontra afinal em jogo não é nem mais nem menos do que a passagem da memória das coisas atráves das gerações.
Será assim pelo menos, enquanto as sociedades não se dispuserem a organizar racionalmente, com suas memórias, o conhecimento de si mesma, em vez de se desobrigarem disso, pelo recurso ás suas próprias trágedias. Só o conseguirão atacando frontalmente as duas responsáveis principais do esuqecimento ou da ignorância: a negligência que extravia documentos e, mais perigosa ainda, a paixão do segredo - segredo diplomático, segredo dos negócios, segredo das famílias - que os oculta ou os destrói.

III- A CRÍTICA
Até o policial mais ingênuo sabe que não se deve forçosamente acreditar naquilo que as testemunhas dizem. Ainda que nem sempre saibamos tirar deste conhecimento teórico o partido conveniente. Analogamente, há muito tempo já que não se aceita cegamente todos os testemunhos históricos.
Um historiador, se utlizar um documento, deve indicar, o mais concisamente possível, a sua procedência, isto é, o modo de localizar, dever que equivale a submeter-se a uma regra universal de probidade.
Decerto que a maioria dos escritos assinados com um nome suposto mentem também pelo conteúdo. Os Protocolos dos Sábios de Sião, além de não serem dos Sábios de Sião, afastam-se na sua substância da verdade tanto quanto possível. Os documentos notariais mais regularmente elaborados pululam de inexatidão voluntárias e eu me lembro de ter há pouco antedado, segundo me ordenaram, a minha assinatura numa ata encomendada por uma das grandes repartições do Estado.
Mas verificar o embuste não chega. É preciso descobrir-se também os motivos. Além de uma mentira como tal, é à sua maneira um testemunho. Não é menos verdade que muitas testemunhas se enganam com inteira boa fé. Acrescente-se que, não sendo testemunhos propriamente senão a expressão de recordações, os erros iniciais da percepção correm sempre o risco de se confundir com erros de memória.
A crítica do testemunho, que opera sobre realidade psíquicas, permanecerá para sempre uma arte sutil. Não há para ela um livro de receitas. Mas é também uma arte racional qua assenta na prática metódica de algumas grandes operações do espírito.
Na nossa época, mais do que nenhuma exposta às toxinas da mentira e do falso boato, seria escandaloso que o método crítico não figurasse, embora nem cantinho modesto, nos programas de ensino: porque ele deixou de ser apenas o auxiliar humilde de alguns trabalhos de oficina.

IV- A ANÁLISE HISTÓRICA
É célebre a fórmula do velho Ranke: o historiador apenas se propõe descrever as coisas tal como se passam. Por outras palavras, o sábio, o historiador, são convidados a apagar-se perante os fatos. De maneira que, da mesma assentada, se levantam dois problemas: o da imparcialidade histórica, o da história como tentativa de reprodução do como tentativa de análise.
Existem duas maneiras de ser imparcial: a do sábio e a do juiz. O sábio registra, melhor ainda, provoca experiência que, possivelmente, deitará por terra as teorias que mais prezou. Qualquer que seja o voto secreto do seu coração, o bom juiz interroga as testemunhas com uma única preocupação de conhecer os fatos, tal como se passaram. Chega, contudo, um momento em que os dois caminhos se separam. logo que o sábio obeservou e explorou, dá-se por finda a tarefa. Ao juiz ainda falta dar a sentença. Não é possível condenar ou absolver sem tomar partido por uma tábua de valores que naõ revela de nenhuma ciência positiva.
Ora, durante muito tempo passou o historiador por ser sua espécie de juiz dos infernos, encarregado de distribuir pelos heróis mortos o elogio ou a reprovação. Infelizmente, à força de julgar, acaba-se fatalmente por se perder até o gosto de explicar. Analogamente, para penetrar numa cosciência estranha que os intervalo das gerações separa de nós, quase precisamos de nos despojar do próprio eu.
Uma palavra domina e ilumina os nossos estudos: compreender. Não afirmamos que o bom historiador é alheio às paixões. Nunca comprrendemos bastante. quem difere de nós - estrangeiro, adversário políticos - passa quase sempre por mau. Compreender, todavia, nada tem de passivo.
A ciência só decompõe o real para melhor o poder observar, graças a um jogo de fogos cruzados cujos raios constantemente se combinam e se interpenetram. O perigo só começa quando cada projetor pretende ser o único a ver tudo. Ora, o que é próprio do método científico, tal como praticam aquelas formas do saber e, graças ao seus sucessos, o justificam, é abandonar deliberadamente o contemplador, para só ter olhos para os objetos contemplados.
A nossa ciência não dispõe, como a matemática ou a química, de um sistema de símbolos separado de qualquer língua nacional. O historiador fala unicamente com palavras, portando, com as palavras do seu país. Se se encontra perante realidades que se exprimem numa língua estrangeira, tem forçosamente de traduzir. Ora é pelos seus escritos que conhecemos uma sociedade - excetuados as testemunhos materiais.
Todo mundo sabe que os autos de um interrogatório judiciário reproduzam literalmente as palavras pronunciadas. O escrivão, quase espontaneamente, ordena, classifica, corrige a sintaxe, expurga o texto das palavras consideradas demasiadamente vulgares. as civilizações do passado também tiveram os seus escrivães. Foi a voz deles que principalmente chegou até nós.
Em resumo: o tempo humano há de ser sempre rebelde tanto à implacável uniformidade como ao seccionamento rígido do tempo do relógio.

Um comentário:

AMOR disse...

SIM A HISTÓRIA NÃP PODE SE DETER A APENAS REPETIÇÕES. Devemos utilizala para a reflexão.mas não de maneira uniforme.

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